Primeiro dia de trabalho. O Horror. O Drama. A Tragédia.

[Artur Albarran, onde estás tu?]

Noite mal dormida, cérebro a 100 à hora a pensar Oh meu deus tenho um blog, que fixe, #aitenhotantasideias, #aijesusqueincrível, #aiamanhãvoutrabalhar, #aiistoémesmoasério!  Resultado: acordo com olhos de anfíbio, mas apesar de tudo com acuidade visual suficiente para sobreviver às primeiras tarefas do dia sem me cortar, queimar ou afogar.

7h45. Frio. Apanho o bus. Há qualquer coisa de reconfortante em andar de autocarro. Talvez o seu bambolear me leve de volta àqueles domingos a passear de carro com os meus pais. 10 minutos de viagem bastavam para adormecer no banco de trás, de cara chapada no Jornal de Notícias e um fio de baba que ia ajudar a imprimir as notícias do dia na minha cara.

Depois do bus, apanho o S-Bahn, encaminho-me com as restantes formigas até ao edifício certo. O raio do edifício mais longe da estação. Puff! Já me cronometrei: demoro 8 minutos a fazer o caminho todo (estes tempos foram obtidos com calçado raso e tempo limpo, podem variar com condições climatéricas e calçado adverso).

E então, o horror? O drama? Caaaalma!

Como um SCHNECKEN (lê-se chnéquen) na padaria da empresa. Soa agressivo, mas não passa de um caracol de massa folhada com avelãs. Ainda não está aqui o horror e a tragédia.

Venho-me embora. Sim, não se passou nada de relevante no trabalho. Adiante!

Perco o metro das 29 porque fui à recepção levantar o cartão de identificação e afinal não é na recepção, é noutro edifício qualquer e só amanhã agora. Espero 10 MINUTOS pelo próximo. Entro. Esgoto as minhas vidas de Candy Crush. Saio do metro, vou pra paragem de bus. Sou abordada por um tipo que quer ver o calendário do meu telemóvel… DAFUQ? Que pervert! Faço-me de burra mas enganei-me e falei em alemão primeiro. Tona! Digo em inglês -What? Me know nothing, me Johanna Snow (esta última parte é inventada, mas podia ter acontecido). E ele fala inglês e está mesmo a falar a sério. E fala comigo como se eu fosse mesmo estúpida e não soubesse que o meu telemóvel tem calendário. Mostro-lhe o calendário e o homem a perguntar se dia 20 é sábado. Yes, it’s Saturday. -And 27? Also Saturday!  Isto é repetido várias vezes até o homem ficar satisfeito e ir à vida dele. E durante este tempo todo seguro o telemóvel com todas as minhas forças, porque achei desde o início que isto era uma cena pra me fanarem o telemóvel. AHAHAHAH silly me! Nem um pedinte quer o meu telemóvel (muito menos um que viva em Munique!)

E agora, o momento tenebroso. Continuo na paragem do 100 (onde o episódio anterior se passou). O 100 devia aparecer às 48. São 46 e não o vejo na rua. 47…, 48… Nem sinal de bus. Oh meu deus! 49. É a sério, o bus tá mesmo atrasado. PÁRA TUDO! 50: nunca mais chego a casa. Mais vale ir a pé. 51, começo a ver onde pra onde vão todos os outros buses. Nenhum vai pros meus lados. Que faço agora? Vou de metro, de eléctrico, de táxi, de uber, a pé? Houve um atentado? Porque é que o autocarro não aparece e não há informação nenhuma??!! Finalmente ele chega. E apercebo-me do mal que faz à minha saúde vascular viver numa cidade onde os transportes chegam a horas. Nunca na vida me stressava no Porto se um autocarro não tivesse chegado à paragem 10 minutos depois da hora prevista AHAHAHA já esperei meias horas, uma hora. Os circulares então! Me-ni-na! Nunca se pode confiar neles. E aqui, uma pessoa habitua-se (e eu só tou cá há uma semana) a que o autocarro chegue mesmo às 48 como diz no papelinho da paragem.

 

Lição do dia: o uso prolongado e confiante de bons transportes públicos pode conduzir ao aparecimento de desequilíbrio emocionais. Não use transporte públicos em caso de ansiedade ou depressão. Se tiver alergia a cheiro de sovaco e falta de banho, não tome transportes públicos durante o verão. Leia o Folheto Informativo. Em caso de dúvida ou persistência dos sintomas consulte o seu médico ou farmacêutico. Ou ande de carro.