Um inglês e um bulldog francês entram num bar. Na China.

white and black english bulldog stands in front of crackers on bowl at daytime

O Brexit e a guerra comercial entre os EUA e a China parecem, à partida, temas bastante aborrecidos. Mas olhem que nãaaaaao! (ler com voz de Álvaro Cunhal em debate com Mário Soares*).

 

O Brexit.

O mais temido aconteceu quando a 23 de Junho de 2016 (altura em que no burgo se está numa fila qualquer ou pra fêveras ou pra sardinhas) os british decidiram que estavam fartos e bazaram. Sem sair do sítio. Desde aí tem sido o horror, o drama, a tragédia. E muita especulação.

O maestro e compositor britânico Howard Goodall deu uma entrevista recente (onde?) ao NYTimes (As Brexit Looms, Musicians Brace for the Worst) onde se abordam as consequências do Brexit para a indústria musical. E para quem como eu nunca se deu ao trabalho de pensar no Brexit (a não ser para ir a Londres antes de Março 2019) é bastante revelador. E as consequências não são poucas. Num artigo no site dele explica em mais detalhe e com o típico humor britânico (Brexit and music: Theme and Variations) o impacto que as fronteiras trarão. Ide lá e leiam, não vou tar agora a explicar.

Uma curiosa consequência do iminente Brexit tem sido o surgimento de hoarders** e preppers*** no outro lado do canal. Montes de brits estão a comprar latas de conservas, arroz, massas, etc. para se protegerem do grande Armagedão que aí vem. Imagino que arenque fumado, bacon, feijões e papas de aveia também façam parte da lista de compras. Mais informações aqui: British Hoarders Stock Up on Supplies, Preparing for Brexit.

Se esta parece, à partida, uma actividade inofensiva e até divertida, o divertimento termina quando há quem depende de medicamentos fornecidos por empresas fora do Reino Unido e não pode acumulá-los à maluca na garagem, porque dependem de receita médica. E não sabem como será a partir de Março.

Bifes,

Deixai essa ideia louca do Brexit! Nós estivemos unidos e em guerra desde que a Europa começou a gatinhar. Passámos por tanta coisa. Voltai! A gente perdoa-vos o Henrique VIII, o protestantismo, o Francis Drake, a destruição da nossa armada, o Tratado de Methuen, a guerra dos cem anos, a guerra dos 30 anos (o.k. desta vocês não tiveram culpa), o divórcio da princesa Diana, a morte da princesa Diana, o Carlos & a Camila, a rainha…

Voltemos a vestir licra e a jogar os Jogos sem Fronteiras!

 

China.

E no outro lado do mundo: China, 2018. Plena guerra comercial entre EUA e a RPC. Quem sofre? Golden retrievers e bulldogs franceses.

Inusitado, hã?

A comida de cão foi a última vítima nesta guerra fascinante. Os donos de canídeos que importam ração dos EUA viram os preços da ração aumentar por causa das tarifas comerciais. Como se não bastasse, as vingativas alfândegas chinesas atrasam os carregamentos e quem sofre são os Bobis.

Muitos donos importam ração porque não confiam nas marcas chinesas. (E quem é que os pode culpar? Lembram-se do escândalo do leite em pó e das vacinas estragadas?). O bem-estar animal não deve estar nas prioridades das empresas chinesas.

E, como consequência, há gente que não consegue dormir porque não sabe se vai conseguir comprar a ração desejada para o seu amigo canino ou felino.

E quando conseguem comprar ração, provam-na antes com medo que esteja contaminada! Se a ração souber a peixe podre, frango em decomposição ou semelhantes, não deixam o Bobi chegar perto.

Agradeço à minha gata poder continuar a viver sem saber a que é que Advance para gatos esterilizados sabe!

Artigo completo em The Trade War’s Latest Casualties: China’s Coddled Cats and Dogs

Mais uma vez, a excelência do jornalismo é do NY Times, mas chega-lhe aqui, nesta excelência de conteúdos que é este blog.

 

*https://www.youtube.com/watch?v=BNpIOarNQ08 minuto: 0.47

** acumuladores

*** uma pessoa que acredita que um evento catastrófico irá acontecer e se prepara activamente para ele, normalmente criando reservas de comida, munições e outras provisões. Não confundir com extreme couponing. O extreme couponing é uma actividade que consiste na recolecção de tudo o que é cupão de desconto (através de revistas da especialidade ou na internet) de modo a tentar adquirir quantidades absurdas do mesmo produto a custo zero. A sobrevivência não é, de todo, a prioridade do extreme couponing!