Joana vai à neve: o início.

Tudo começou na cave do Ken.

Bem, começou um bocado antes.

No início de Outubro, o J., que me tinha recomendado o curso de ski, enviou um e-mail ao Ken.

O Ken respondeu com muitos e-mails sobre como adicionar o Ken aos contactos para os e-mails do Ken não irem parar ao spam. Depois mais e-mails sobre como participar na InfoEve (=sessão de esclarecimento) e quando será e quem está inscrito e em que sessão. E-mails sobre o material a comprar. Muitos e-mails a informar QUE O TAMANHO DAS MEIAS TEM DE SER PELO MENOS 1 TAMANHO ABAIXO DO QUE CALÇAMOS, SE NÃO AS MEIAS VÃO FAZER-NOS BOLHAS GROTESCAS NOS PÉS. E ninguém quer isso.

O Ken tem um método de ski: paralelo. E um método de comunicação: e-mail only. Nada do que se diga oralmente ao Ken fica gravado. Tudo tem de ser repetido por escrito. E por isso o Ken manda muitooooooos e-mails.

Até aqui, o objectivo desta intensiva troca de e-mails era apenas conseguir lugar numa InfoEve. E consegui.

Numa fria e áspera sexta-feira de Outubro encontrei-me reunida com outros aspirantes a esquiadores debaixo do relógio da estação de metro de Quiddestrasse (tal como o Ken tinha indicado no e-mail). E debaixo do relógio, estava um indivíduo de boné e com um ski pequeno nas mãos: era o Ken.

O Ken leu os nossos nomes duma lista. Várias vezes. Até estar toda a gente. Depois mandou os condutores (que tinham sido designados umas trocas de e-mail atrás) encostarem-se à parede e distribuiu-nos aleatoriamente pelos carros.

Siga pra casa do Ken! Um grupo pra sala, outro pra cave. O meu foi pra cave.

Começámos a experimentar botas de ski numa cave minúscula. As paredes cobertas de botas, o chão coberto de skis, bastões, dois bancos corridos onde nos encavalitamos uns contra os outros e todo o pouco espaço restante coberto de ferramentas, palmilhas, esponjas, línguas de botas, caixas, fita cola, pó e et ceteras. Rapidamente o ar saturado da cave se encheu de um eau de chulé pungente. Íamos experimentando botas e seguindo as indicações dos instrutores: a unha toca na ponta mas não pressiona? Consegues mexer os dedos mas o pé não desliza? Levantar o calcanhar mas sem levantar o pé todo? Quando finalmente toda a gente encontrou a sua botifarra de cinderela, escrevemos as 3 primeiras letras do primeiro nome e a primeira do último numa etiqueta amarela e colocamo-la horizontalmente na traseira da bota escolhida. O amarelo horizontal era a cor do nosso ano. E este era apenas um dos incontáveis processos do Ken.

Segunda parte: na sala do Ken.

O Ken explicou com funcionava o método de ski paralelo, deu-nos uma folhinha com os preços, datas, etc. e mostrou-nos vídeos dos exercícios do curso (a maior parte gravados no auge dos anos 90). Um era especialmente bom: o Ken a descer a montanha envergando um macacão de licra roxa, enquanto demonstrava os seus dotes de esquiador. Impagável!

De seguida, calçamos uns mini skis todos moles e aprendemos a cair. Cada um, à vez, amandou-se para cima dum colchão a desfazer-se (mais pó que esponja) com os skis nos pés, rodou até estar de barriga pra baixo com os pés a apontar para a encosta imaginária e levantou-se o mais graciosamente que pôde. Isto enquanto o Ken tirava notas da nossa performance.

Depois, ao som de Beach Boys, repetíamos os movimentos que o Ken demonstrava. Na sala do Ken um bando de adultos expatriados em Munique, desconhecidos uns dos outros até ali, dançava de skis nos pés ao som de “I Get Around“, enquanto tentava imitar as curvas naquela montanha fictícia de Neuperlach. Põe a música a tocar e imagina: https://www.youtube.com/watch?v=wREBD2og5iY

E já agora, este é o Ken: