Joana vai à neve. O sku. (ii)

Eu acreditava que a cena das pernas era temporária…

Que durante a noite, milagrosamente, as minhas células se unissem como num anúncio de medicamento e juntas combatessem as pisaduras e regenerassem as minhas canelas. Isso não aconteceu. Quando calcei as botas, mal podia andar. E quando partilhava a minha dor, toda a gente dizia, a marimbar pra dor alheia, que “é normal”, “é sinal que tás a fazer bem os exercícios” “não há nada que a gente possa fazer! AGUENTA BEBÉ! Ahahahah que queridos!

Mas afinal dava pra fazer alguma coisa. O S. desapertou-me as botas com uma chave de fenda e soltou os fechos (coisa que ninguém se tinha lembrado nas outras 24h….). Isso aliviou, mas o estrago estava feito. Os meus queridos ossinhos não estavam contentes.

Começamos a repetir os exercícios de sábado. Tinman, hand granade, as paragens, mijar no poste… e no fim da manhã fizemos uma corrida na pista dos bebés! Esta foi a parte mais divertida! Mas raios, as pernas doíam. Quando parava sentia os ossos a serem estrangulados pelas botas. Acho que foi a única vez em que me doeram as canelas, desde que com 5 anos me esbardalhei na Capicua 303 de Santa Catarina e esfolei as pernas todas nos degraus enquanto escorregava pela loja adentro (os Bolton* teriam gostado do aspecto das minhas pernas depois!). Mas desde esses tempos, eu e as minhas canelas temos tido uma relação bastante pacífica e a maior parte das vezes nem me lembro que elas lá estão. Só quando esbarro em qualquer coisa.

E assim se passou a manhã a tentar ignorar a dor nos ossos.

Depois do almoço, shit just got real (=foi a doer)

Fomos para outra pista, inacreditavelmente íngreme, acessível apenas pela “T-rope”. A T-rope é basicamente uma picareta pendurada numa corda. As picaretas estão penduradas numa corda, a pessoa puxa a picareta pra si e coloca um dos lados abaixo do rabo – e não “debaixo”. Se forem duas pessoas, fica uma de cada lado e agarram-se ao cabo da picareta, que fica no meio das duas.

A T-Rope é uma coisa do demónio. Se uma pessoa cai a meio da pista não consegue subir sozinha (daí haver uma corda a puxar o povo), mas também não consegue voltar pra baixo. Os nossos instructores ensinaram-nos o que fazer não “se” mas “quando” caíssemos, tal era a confiança em nós. Por acaso ninguém caiu. EMBRULHEM!

Na outra pista e ainda sem bastões e, portanto, sem nada onde agarrar, lá tentávamos descer seguindo as coreografias do H. Eu bem tentava levantar e baixar e o caraças mas doíaaaaaaa. O H. bem dizia pra fazer assim e assado e curvar e baixar e levantar mas nada feito. Não conseguia imitar bem os movimentos por causa das dores nas pernas, por isso caía mais vezes. As quedas cansam, doem e geram ainda mais dor – isto tudo criava uma bola de neve (mais neve!) de repetições dolorosas. A meio da tarde encostei pra canto.

Juntei-me aos outros enfermos na box do Rockbar. A moral não andava em alta por aqui: povo com joelhos torcidos, derrotados pelo primeiro fim-de-semana de ski e a Mary. A Mary tem 70 e tal anos e estava a aprender a esquiar, só que durante a tarde ficava cansada e tinha de parar. Desistir à beira da Mary parece mal. Mas a Mary é incrível. Trocámos histórias sobre as nossas maleitas, números de telefone e fiquei com dicas para uma próxima visita a Gales (obrigada Mary!)

O Aprèsski hoje era no Grander Schupf. Para chegar lá é preciso apanhar a gôndola e pra descer vem-se de ski ou sku. Eu e o restante grupo de lesionados fomos de carro. A viagem não foi isenta de aventura, a rua estava completamente entupida de neve e a certa altura havia um carro a descer e o nosso e mais outro a subir – drama, horror & tracção às quatro rodas.

Chegados ao Grander Schupf, fomos recebidos com olhares de pena e comiseração por alguns que tinham continuado a esquiar até ao fim. E por comentário como “a mim também me doía mas não desisti”, “oh meu deus, houve pessoas que vieram de carro!” e #meudeuseunaodesistonuuuunca, #eusouumamaquinadeguerra, etc.

A esta gente, que teve o privilégio de descer a pista de noite e de cu eu relembro as sábias palavras de Ana Malhoa em “Turbinada“:

“Sou uma máquina sim, la máquina de fiesta! SUBELO!”

E agora vou pra casa pôr Hirudoid nas pernas. Até ao próximo fim-de-semana.

*Bolton: se não sabes quem são os Bolton, pesquisa “Guerra dos Tronos”. Se acabaste de revirar os olhos vai ouvir Ana Malhoa. AZUCAR pra ti!