Who let the dogs (e os cavalos de madeira) out ?

ATENÇÃO: Este post vai falar de homens vestidos de cão em São Francisco e de meninas que correm com cavalos de madeira pela Finlândia.

Comecemos pelos States.

São Francisco: ponte Golden Gate, Harvey Milk, direitos LGBTQ, tostas de abacate, Silicon Valley. É o que me vem à cabeça quando penso em São Francisco. E a partir de agora: homens vestidos de cachorro a passear pelas ruas. E não são mascotes de nenhuma loja ou marca.

A moda começou no BDSM* e saltou para fora dos quartos. Estes homens colocam máscaras de cachorro, açaimes, coleiras e/ou caudas… e andam em matilhas pela cidade. Até aqui nada de estranho (ahahah). Não, isto não acontece só durante o Carnaval.

Eles identificam-se com a personalidade brincalhona e instintiva dos nossos companheiros caninos, adoptam nomes de cachorro (será que em Portugal isso daria azo a Tejos, Mondegos e Bobis a passear sobre duas patas?) e às vezes usam rugidos e ganidos como forma de comunicação.

Alguns identificam-se com uma raça de cães específica e usam o seu “pup name” (=nome de cachorro”) na “vida real”.

Muitos de vós, leitores atentos, devem estar a esbugalhar os olhos. A pensar que o Apocalipse está mesmo próximo e que o fim vai chegar antes de o aquecimento global lixar isto tudo.

Mas não! Acalmai-vos! Reparem: pessoas a identificarem-se com animais ou os seus poderes já existem desde o início dos tempos – ou pelo menos desde que a caça do mamute foi proibida. No mundo do desporto há muitos clubes que têm por símbolo animais. Uns mais bonitos que outros claro, mas dragões há poucos e o último fugiu de Westeros! E se há quem se disfarce de animal no Carnaval, há quem vista listas de zebras e pintas de leopardo o ano todo.

E nem quero falar das milhentas tribos que invocam o poder de certos animais em rituais.

Mas passemos aos cavalos.

Lembram-se daqueles cavalos de brincar que basicamente consistiam num pau de vassoura e uma cabeça de cavalo em peluche? E se eu disser que há campeonatos de dressage de cavalo de madeira? Onde crianças (e só meninas) executam coreografias montadas num cavalo de madeira, mexendo as pernas como se fossem as do cavalo e mantendo o torso direito como um cavaleiro dum cavalo de carne e osso? Não é mentira, isto acontece na Finlândia.

Começou como uma espécie de sociedade secreta, com discussões online. Mas todas estas crianças/mulheres juntaram-se e hoje em dia há um campeonato nacional, treinadores, alunas e muitos cavalos de madeira a galopar pela Finlândia fora.

No início, algumas praticantes foram vistas como um bocado estranhas. Afinal, que faz uma adolescente a brincar com cavalos de madeira? Balha-me deus. Claramente deve estar possuída por belzebu. A uma delas ate lhe disseram que nunca ia arranjar namorado.

Aparentemente, brincar com um cavalo de madeira não enquadra naquilo que é suposto uma adolescente fazer. A partir do momento em que alguém entra na puberdade deve deixar tudo o que e infantil para trás. Para sempre (ou pelo menos até ter filhos e poder fazer de conta que vai comprar coisas pra eles).

Fico contente que a Finlândia e São Francisco sejam um espaço de liberdade, onde uma pessoa pode fazer o que lhe da na gana, sem magoar ninguém e sem ser chateado.

E voc~e que está a ler isto, deixe os outros andar vestidos como querem e brincar com o que quiserem! Ninguém tem nada a ver com isso. E você faça também aquilo que quer**.

* definição para as crianças que estão a ler o post: Banda Desenhada Sem Maneiras

**respeitando as normas da Constituição da República Portuguesa, as leis e demais disposições do ordenamento jurídico português, os preceitos da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, etc., etc., etc. E vai ver que mesmo com tanta lei há muito espaço para ser feliz!

* Mas na verdade é Bondage, “Dominance” e SadoMasoquismo

Fontes: https://www.nytimes.com/2019/04/21/world/europe/finland-hobbyhorse-girls.html