O MINISTÉRIO DA FELICIDADE SUPREMA, Arundhati Roy

Pensei que a minha saga indiana do início de 2020 iria estar concluída com “Heat and Dust”, mas por obra do acaso, ofereceram-me o último livro da Arundhati Roy no aniversário. E ainda bem. Este é o segundo romance da autora 20 anos depois do “Deus das Pequenas Coisas”.

Conta a história de Anjum, Tilo, as Meninas Jebeen (a Primeira e a Segunda), Musa, Saddam Hussein, Naga e Biplab Dasgupta. A história de Anjum é a que parece escrita de forma mais insegura. O percurso de transformação do hermafrodita Aftab na hijra Anjum soa um pouco artificial, a roçar o chavão. Mas no romance entre Tilo e Musa e Musa e a revolução A. Roy mostra toda a sua mestria e inquestionável talento a criar romances de enorme beleza (e de partir o coração).

Os conflitos internos das personagens desenrolam-se num espaço que é ele próprio causa e palco de conflitos. Anjum vive uma guerra indo-paquistanesa dentro dela própria, entre a sua identidade de género e o corpo com que nasceu. Saddam Hussein adoptou este nome porque deseja tornar-se um homem implacável e frio. Musa consegue ser feliz mesmo vivendo no palco da guerra indo-paquistanesa (Caxemira) até que é arrastado para o meio do conflito. Biplab é um espião com dúvidas sobre qual é o lado certo.

A. Roy aborda também a ascensão do nacionalismo hindu, a questão dos intocáveis e do sistema de castas, a desigualdade, os direitos das mulheres e das minorias e outros temas bastante actuais.

Não é um murro no estômago tão grande como o “Deus das Pequenas Coisas”, mas mesmo assim fez-me encolher no meu canto e fugir da realidade num disco voador.

Mais propriamente num mundo em forma de disco que assenta em quatro elefantes que por sua vez estão pousados em cima duma tartaruga gigante que viaja pelo Universo (coff coff o logo desta conta). Adivinharam! Recomecei a ler a saga Discworld do Terry Pratchett! A verdade é que com esta coisa da pandemia uma pessoa já nem pode confiar na ficção para se sentir bem, tem de se mergulhar mesmo a fundo na fantasia e ir para um mundo o mais diferente possível do nosso. Bem, mais ou menos…

Até já e boas leituras!

4/5